Artigo sobre a Transposição do São Francisco, por Geraldo Antunes Cacique - Maio/2001

"O problema principal do Sr. Licínio, como de tantos outros nordestinos, não é a água, é opção de vida".

Foi um contra senso a audiência pública para a transposição do "Velho Chico" em Belo Horizonte no dia 30 de março de 2001. Os opositores do projeto usaram argumentos falhos, como a exigência de revitalização do São Francisco.

A revitalização de um rio se faz:

1) Com projetos sanitários que priorizem os tratamentos dos esgotos e dêem melhor destino para estes. Porém, são caros e devem ter como metas principais a saúde da população e não a revitalização de um rio. Devem beneficiar toda a população e não uma determinada bacia hidrográfica.

2) Com a conscientização das populações ribeirinhas no uso de suas águas.

Os que se opõem à transposição deveriam estar, veementemente, reivindicando o direito de uma melhor saúde para si e sua prole junto aos órgãos competentes e aos seus representantes públicos. A transposição do rio, vitalizado ou não, em nada influencia as suas vidas.

Do outro lado da questão existem o dono do projeto, o governo federal, e os nordestinos que defendem a transposição. Um projeto que não funcionará. Não é necessário ser engenheiro ou técnico no assunto, basta usarmos o bom senso, o que é feito a toda hora pela natureza.

O coração, através de um sistema de artérias principais e milhares de micro artérias, cumpre sua função vital de levar o sangue oxigenado a todas as células de um corpo, recolhendo, simultaneamente, o sangue venoso para ser purificado no pulmão através de um sistema similar de veias.

A energia solar, através da evaporação, purifica e transforma as águas do mar em nuvens. As nuvens são levadas pelos ventos, transformadas em chuvas que são distribuídas em todas as regiões. Através de um sistema composto por rios, córregos, e riachos, essas águas são coletadas e levadas novamente ao mar, completando o seu ciclo.

Para a transposição de um rio da grandeza do Velho Chico para uma região do tamanho do Nordeste, é possível a construção dos canais principais e secundários, represas, açudes, adutoras, sistema de distribuição de água dentro de uma cidade, etc. A dificuldade é na execução de um sistema de distribuição para levar água a todos, ou a maioria dos "Licínios"do sertão nordestino.

Os quatro estados - Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte - tem ± 350.000 km2. Digamos que o projeto deseja beneficiar 40% desse total, ± 140.000 km2, com a população estimada em ± 6,7 milhões de habitantes. Para funcionar, razoavelmente, precisaria de pelo menos 1 ponto d’água/km2.

Os canais podem aproveitar a gravidade, mas essa distribuição terá de ser bombeada, como num sistema arterial, significando no mínimo 140.000 km de canos, milhares de bombas e motores. O custo benefício para operar um sistema de distribuição como esse torna o projeto inviável. Uma coisa é distribuir água numa cidade, outra coisa é distribuir numa região. Só a natureza, com a sua lógica, é capaz dessa façanha.

Os projetos contra a seca pecam por ter como objetivo a água e não a sua distribuição, acabando por beneficiar apenas a uma parte irrisória da população visada. No auge de uma seca, um "Licínio", precisa da água perto de sua moradia para beber e regar um pé de milho para a sua alimentação e dos seus animais, se é que os tem: vacas, cabras, galinhas, etc.

E os benefícios da irrigação? Não seria mais econômico irrigar as margens do São Francisco do que levar água cara para irrigar 500 km?

Por exemplo. O vale do Jequitinhonha é tão seco quanto o Nordeste e os seus moradores são constantemente assolados por períodos de estiagem. Contudo, a perenidade do Rio Jequitinhonha não ameniza em nada a vida dos habitantes do vale nesses períodos de seca.

O Governador Itamar Franco ameaça entrar na justiça com o argumento: Transposição só com revitalização. Não seria mais inteligente, inclusive politicamente, mostrar que essa transposição é mais um desperdício de verbas, como tantas outras aplicadas em projetos, eufemisticamente chamados de "soluções para a seca nordestina", como, por exemplo, o projeto de Orós? E, ao mesmo tempo, fazer uma campanha para que essas verbas sejam distribuídas aos "Licínios" nordestinos com a obrigação dos mesmos manterem os seus "Licininhos" na escola?

Em tempo, "Licínio"é o Sr. José Licínio da Silva, do Sertão Cearense, sobrevivente há 62 anos de secas nordestinas, 23 filhos dos quais 10 mortos. Ele apareceu na foto da manchete do Estado de Minas, junto a sua esposa e seu filho (nu) em 28 de março de 2001, sonhando com canjica e pamonha feita com milho do seu quintal irrigado com águas do Velho Chico. O problema principal do Sr. Licínio, como de tantos outros nordestinos, não é água, é opção de vida, que o seu filho, o "Licininho", terá se o governo prover os meios necessários para a sua educação. Se nos governos passados, os gastos com projetos, como Orós, fossem aplicados na educação do Sr. Licínio, garanto que hoje ele não estaria na manchete do Estado de Minas.

A solução para o Nordeste fica para a próxima...

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